Resumo
Trabalhava até tarde, como quase sempre. O silêncio da casa era confortável — daqueles que ajudam a concentrar. Só o som do teclado e, de vez em quando, o vento a bater ligeiramente nas janelas.
Por volta das 2h17 da manhã, o ecrã do computador piscou.
Nada de estranho — pensei que fosse uma falha momentânea. Mas logo depois, o cursor começou a mover-se sozinho.
Primeiro devagar. Depois com mais firmeza.
Parei de escrever. Fiquei a observar.
O cursor abriu uma nova linha.
E começou a escrever.
Sozinho.
“Ainda estás acordada.”
Fiquei gelada. O coração acelerou, mas tentei manter a lógica: vírus, script, algum tipo de bug. Apaguei a frase. Tirei as mãos do teclado.
Esperei.
Silêncio.
Respirei fundo.
Voltei ao trabalho.
Segundos depois, a mesma coisa.
“Eu sei que estás aí.”
Desta vez, não toquei em nada. Só observei. O cursor piscava no final da frase, como se estivesse à espera.
Desliguei o Wi-Fi.
Nada mudou.
Desliguei o computador.
O ecrã ficou preto… por dois segundos.
E depois voltou a ligar sozinho.
Mas não era o meu ambiente de trabalho.
Era uma imagem.
Granulada, quase como uma gravação antiga.
Um corredor.
Reconheci-o imediatamente.
Era o corredor da minha casa.
Mas… não exatamente como estava.
Era como se fosse mais antigo. As paredes tinham outra cor. A luz era mais fraca.
E lá ao fundo…
uma porta.
A porta do meu quarto.
Na imagem, ela estava entreaberta.
Na realidade, atrás de mim… estava fechada.
Senti um arrepio subir pela espinha.
E então, na imagem, a porta começou a abrir lentamente.
Sem som.
Centímetro a centímetro.
Até revelar… escuridão total.
E algo dentro dela.
Não uma forma clara. Não uma pessoa.
Mas algo que… observava.
O ecrã piscou novamente.
E voltou ao normal.
Fiquei imóvel durante alguns segundos, sem coragem de olhar para trás.
Quando finalmente o fiz… a porta do meu quarto continuava fechada.
Levantei-me devagar.
Aproximei-me.
Coloquei a mão na maçaneta.
Antes de abrir… ouvi.
Do outro lado.
Um som suave.
Como dedos… a arranhar levemente a madeira.
Congelei.
E então, muito baixo, quase um sussurro:
“Agora já sabes que eu também te vejo.”
Nunca mais voltei a trabalhar até tarde.
E desde essa noite…
há sempre momentos em que o cursor pisca sozinho.
Como se estivesse à espera… que eu responda.